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jan 24 2010

Entrevista com Vinton Gray Cerf, o “pai” da Internet

Vinton CerfPoucos são os momentos, nesta vida, que tornam-se inesquecíveis. Para mim, este certamente foi um deles. Conseguir uma entrevista direta com Vint Cerf, o homem que eu conhecia apenas dos livros que estudei durante minha carreira em redes, parecia algo improvável. Mas eis que, com um pouco de persistência – e muita boa vontade do Sr. Cerf, claro – consegui! Segue abaixo, na íntegra e traduzida, esta entrevista. Dada a importância deste ser humano, resolvi criar dois posts. Este, com a entrevista em Português, e outro, com a mesma entrevista em seu formato original, em Inglês.

Espero que gostem! um abraço!

Marco Filippetti


Sr. Cerf, antes de tudo, em nome de todos os leitores deste blog, gostaria de agradecer-lhe por disponibilizar-nos tempo em sua agenda surpreendentemente ocupada para participar nesta curta entrevista. Como disse antes, é uma honra indescritível ter a oportunidade de entrevistar uma lenda viva, o homem que criou a Internet.

<——- Início da Entrevista ——->

FILIPPETTI: No fim dos anos 60, o senhor participou do lançamento da ARPANET, interligando seus primeiros dois nós. Muitos leitores deste blog – eu incluso – gostariam de saber:

FILIPPETTI: O senhor imaginou, naquela época, que a ARPANET e os protocolos TCP/IP acabariam afetando a vida de bilhões de pessoas, à medida que a ARPANET evoluiu para a Internet atual?

Quote 01MR. CERF: Naquela época eu trabalhava nos protocolos para a ARPANET como um membro do Grupo de trabalho em Redes, liderado por Steve Crocker, e acho que eu não tinha nenhuma idéia do que viria a acontecer. Estava na UCLA (Universidade da Califórnia) naquela época (1967-1972) e também trabalhando no meu doutorado, assim como atuando como programador principal para o Prof. Leonard Kleinrock, no Centro de Gerenciamento de Rede. Em 1973, Bob Kahn e eu começamos a trabalhar no projeto de uma arquitetura e um conjunto de protocolos que permitiriam a interligação de um número arbitrariamente grande de redes de pacote. Na época em que conduzíamos este trabalho, estávamos bem conscientes das aplicações que seriam possíveis, inclusive coisas como o transporte de voz e vídeo sobre redes de pacotes. Estávamos também bem conscientes do trabalho de Douglas Engelbart na SRI Internacional em suportar trabalhos de conhecimento colaborativo em mouses, monitores branco e preto com modo de exibição retrato (vertical), hyperlinking e ferramentas poderosas de edição e compartilhamento de documentos eletrônicos. Enquanto nós provavelmente não previmos a tempo a adoção global destas tecnologias, sabíamos que forneceria uma enorme e extraordinária oportunidade que permitiria o surgimento de uma ampla gama de inventos vindos de inúmeros colaboradores. Tratava-se de um design extremamente aberto e distribuído, e adotou uma postura básica de acomodação para quase qualquer um com uma idéia para colocá-lo em prática. Nossa idéia era que se pudéssemos implementar os protocolos, você poderia conectar-se à rede e tornar-se parte dela.

FILIPPETTI: Quais foram os maiores desafios enfrentados na época?

Quote 02MR. CERF: Quando o trabalho de projeto já se encontrava adiantado, tivemos que criar uma forma de referenciar diferentes redes e designar endereços lógicos para cada computador, em cada uma destas redes. Isso resultou no Protocolo IP (já em sua versão 4, na época). Foi também necessário criar o conceito de “Gateway”, que poderia transmitir pacotes IP de uma rede para outra. A idéia NÃO era traduzir formatos de pacote entre as redes conectadas, mas sim, encapsular cada pacote IP no formato de pacote necessário para cada rede. Isto seria análogo a colocar um cartão postal em um envelope específico para cada rede conectada. Eventualmente, os gateways tornaram-se routers e todo o mundo começou a “falar IP”, mesmo no core da rede. Desde então, outras tecnologias para interconexões de rede como Multi-Protocolol Label Switching (MPLS), Frame Relay, ATM, e várias outras formas de redes com ou sem fio passaram a encapsular pacotes IP para transporte dentro de cada rede.

Quote 03Outro grande desafio foi conseguir que o protocolo fosse implementado nos diversos sistemas operacionais existentes na época (cerca de 30, creio). Precisamos, então, convencer a todos que seria necessário substituir os protocolos de rede do programa NCP da ARPANET. Isso foi em 1º de Janeiro de 1983. Depois disso, a batalha foi com a padronização global, e tivemos de guerrear contra os padrões rivais X.25/X.75 e OSI (Open Systems Interconnection). Eventualmente, o TCP/IP tornar-se-ia o padrão “de facto”. Depois, por volta de 1989, veio a World Wide Web (WWW), o que deu força à utilização comercial da Internet. Hoje, muitas questões políticas, técnicas e de segurança assolam a comunidade Internet uma vez que ela se tornou um recurso e uma infra-estrutura de uso global.

FILIPPETTI: Hoje em dia, é de conhecimento comum que a exaustão dos endereços IP vem ocorrendo rapidamente. Previsões mostram que por volta de 2013 não teremos mais endereços IP públicos (roteáveis) disponíveis. A versão 6 do protocolo foi criada como uma resposta para este problema há mais de 10 anos (em 1998). Ainda assim, podemos dizer que o IPv6 encontra-se em sua infância em termos de adoção global, tendo uma penetração de menos de 1% nos hosts conectados à Internet, mundialmente. Isso nos leva à questão:

FILIPPETTI: Como o senhor vê este problema (da tímida adoção global do protocolo IPv6), somado à questão da rápida exaustão dos endereços IPv4 roteáveis?

quote4pt.gifMR. CERF: Geralmente, penso que a pressão ficará mais forte quando a exaustão ficar mais óbvia, lá para meados de 2011. Por outro lado, vejo evidências da implementação do IPv6 em lugares chave (e me orgulho em dizer que o Google fez seu dever de casa nesta área). Haverá soluções paliativas para lidar com a incapacidade do IPv4 e IPv6 interagirem diretamente, mas a verdade é que realmente não há qualquer alternativa simples para implementação do espaço maior de endereçamento.

FILIPPETTI: Agora, com tão pouco tempo para adaptação, o senhor enxerga alguma solução para minimizar o impacto para o usuário final e para os provedores de serviço (ISPs), com relação ao problema de migração do IPv4 para o IPv6?

MR. CERF: Existem algumas técnicas utilizando tradução de endereços – NAT – que podem ajudar (a Comcast é um exemplo neste sentido). Entretanto, a maioria dos sistemas operacionais instalados nos laptops e desktops, assim como grande parte dos sistemas operacionais de servidores e roteadores, já possuem a versão 6 do protocolo IP implementadas – resta o trabalho de ativar esta funcionalidade e aprender a trabalhar em “dual-mode”, com ambos os protocolos coexistindo. Concordo que não é algo trivial, mas também não é algo muito complicado – e exige paciência para acertar os detalhes.

FILIPPETTI: A tecnologia é como um ser vivo, e rapidamente altera o mundo em que vivemos por meio da criação de novas formas de interagir com ele.

FILIPPETTI: Quais os cinco ou seis conceitos ou tecnologias que o senhor enxerga com possibilidade de mudar o mundo em que vivemos?

MR. CERF: Redes sem-fio e “ultra-banda-larga”. Delay and Disruption Tolerant Networking (DTN), que está sendo proposto para comunicações interplanetárias e operações móveis em ambientes hostis ou sujeitos a muita interferência. Combustíveis alternativos (não-fósseis), LEDs como substitutos das fontes convencionais de iluminação, novos métodos e tecnologias para tratamento de pacientes (baseados nas informações proporcionadas pelo Genoma e Proteome), eletrônica neural (como os implantes ópticos e auditivos) e computação quântica.

FILIPPETTI: Para finalizar esta entrevista, senhor Cerf, nossos leitores gostariam de saber: O senhor está trabalhando hoje no Google, uma das mais importantes e visionárias empresas de tecnologia do mundo.

FILIPPETTI: Como o senhor foi parar lá?

MR. CERF: Eu enviei um e-mail para Eric Schmidt (presidente do conselho e diretor executivo do Google) perguntando se ele precisava de ajuda, e ele disse “sim”.

FILIPPETTI: Qual o seu papel nesta importante empresa? O senhor poderia mencionar algum projeto revolucionário – não confidencial, claro – que o senhor esteja trabalhando no momento?

quote5pt.gifMR. CERF: Nós não discutimos projetos que não estamos prontos para tornar público, portanto, não posso contar-lhe sobre nada que se encaixe nesta categoria. Estamos trabalhando muito para melhorar os meios como as pessoas interagem com os recursos de rede. Nosso recente anúncio de uma tecnologia que possibilita a incorporação automática de legendas em filmes em inglês é um exemplo disso. Estamos muito focados em melhorar a acessibilidade de nossos produtos e serviços.

Tenho muito interesse na confluência das mídias para a Internet, e fico particularmente curioso para ver quais implicações isso teria para o entretenimento e a educação. Outra área que me fascina diz respeito aos novos meios de interação eletrônica – como a fala e gestos – e como eles quebram o paradigma imposto pelo teclado e o mouse.

Seguimos buscando novas formas de organizar informação, incluindo nossos próprios registros médicos em uma base de dados médica pessoal, por exemplo.

<——- Fim da Entrevista ——->

Sr. Cerf, uma vez mais, gostaria de agradecê-lo por ter aceitado este convite. Eu ainda custo a acreditar que estou trocando e-mails via Internet com uma das pessoas que participou em sua criação 😀 !

Saudações do Brasil,

Marco A. Filippetti



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16 comentários

4 menções

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  1. Tiago Lima

    Sensacional Marco, parabéns pela conquista! E obrigado por aceitar a sugestão da pergunta sobre o Google, a resposta dele foi demais!

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  2. adilson florentino

    Fantástico Marco !

    Não é todo o dia que se consegue uma entrevista com uma lenda viva !

    Parabéns !!!

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  3. Eliseu

    Fantastico Marco, agora diga, quanto tempo de negociações até convencer esta lenda a realizar esta entrevista???

    []’s

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  4. juniorrossetto

    Fantástico seria a expressão mais simplista. Parabéns Marco!!

    Entrevista explendida com a “Lenda”.

    abraços

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  5. Fabio Ribeiro

    Como todos já disseram…”simplesmente fantástico” !!!

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  6. Alexandre Avelar

    Show… De certo ele acordou um dia e pensou. ” Ah… To afim de trabalhar no Google, cadê meu cel…”

    Parabéns Marco!!! Por essa e por outras que esse é um dos mais importantes blogs da áera no Brasil!!!!

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  7. diogocampregher

    Marco,
    Estou impressionado! É uma das melhores entrevistas sobre tecnologia que já pude ler ou presenciar.
    Abraço

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  8. ferrugem

    Não posso deixar de dar os parabéns por mais esta conquista Marco! Você é, no mínimo, uma pessoa diferenciada, e eu já disse isso antes! Sem qualquer demagogia, sou um admirador do seu trabalho!

    A entrevista ficou sensacional.. 😀 Pelo o que eu pude perceber, o projeto já era ambicioso, mas acredito que nem eles imaginaram a proporção que tomaria!

    Em um trecho da entrevista ele comenta:

    (…)
    “tivemos que criar uma forma de referenciar diferentes redes e designar endereços lógicos para cada computador, em cada uma destas redes. Isso resultou no Protocolo IP (já em sua versão 4, na época).”
    (…)

    Aí eu me pergunto: Onde foram utilizadas as versões 1,2 3 do Ip, se é que elas foram usadas para algo, na prática?

    Abs,
    Felipe Ferrugem!

    “Juntos somos ainda melhores!!!”

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  9. Jose Mauro

    Já li uma, duas, N vezes…

    Não tenho palavras para descrever o feito, realmente sensacional!!!

    Parabéns Marco pela entrevista, e a todos do Fórum por manter vivo esse espaço.

    Sucesso e abraços!!!

    JM

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  10. gudines

    Show de bola! Parabéns pela entrevista! Sensacional!

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  11. Deco

    Arregaçou Marco ;D

    Achei o cara um tanto simples … como foi o processo de convite pra ele ceder essa entrevista Marco? Vc já o conhecia?

    abs!

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  12. wagner

    Tive tempo para ler a entrevista apenas agora….E Marco, 100000000 parabens…

    Queria tomar um choppinho com ele, pra ele contar as historias.. deve ser uma pessoa incrivel. o Pai!!!

    parabens Marco mais uma vez, incrivel entrevista

    Aguardo ansionsamente o proximo tet-a-tet!

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  13. Richard

    Gostei muito, levarei adiante as informações dessa entrevista.

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  14. Tiago Pereira

    Entrevista Sensacional. Parabéns Marco por ter conseguido, isso enriquece ainda mais o BLOG.

    Abraços

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  15. ferrugem

    A dúvida do Deco é interessante.. Como foi o processo até o acontecimento da entrevista, que pelo que percebi, foi realizada através de troca de e-mails, não foi isso?

    Mais uma vez, parabéns pelo feito! 😉

    Abs,
    Felipe Ferrugem!

    “Juntos somos ainda melhores!!!”

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  16. Belo post. Poucas pessoas se preocupam em focar nas origens da Internet e protocolos tão comumente utilizados hoje em dia.

    Parabéns.

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