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maio 25 2016

Já pensou em trabalhar fora do Brasil? (parte 3)

Antes de mais nada, aproveito para lembrar que as inscrições para os cursos CCNA Bootcamp que tem início na próxima 2a (em Tempo Real) terminam neste Sábado. Restam apenas 6 vagas 🙂 e 100% do valor arrecadado vai para o Programa FUNCERTI. Aproveitem!


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Agora, voltando ao assunto… no último post eu parei na parte em que eu iria detalhar as etapas do processo seletivo até chegar à conclusão do mesmo. Vamos, então, dar continuidade ao tema (se prepare que vem novela aí…!)  🙂

Paula (a recrutadora da F5) me ligou no dia seguinte, pontualmente no horário marcado (1/2 dia horário do Brasil). Me ligou no telefone mesmo (e não via Skype). Se apresentou, me fez algumas perguntas básicas – porém importantes – e deu continuidade. Aqui, vale um parênteses: As perguntas iniciais – que não eram técnicas – servem para a recrutadora entender um pouco mais sobre os motivos que o levaram a buscar a recolocação. Ela perguntou, por exemplo, por que eu estava considerando sair do Brasil. Reparem que a pergunta – apesar de simples – é importantíssima, e a resposta, muito mais. Se você responder esta pergunta com algo como “Quero sair porque o país está em crise” ou algo assim, certamente irá prejudicá-lo no processo. E o motivo é simples: Passa a impressão de algo temporário (tipo: Quer sair agora porque a coisa não está boa, mas se melhorar, vai querer voltar). Assim, pense bem no que você vai responder em casos como este. Todas as respostas contam. Todas. Mesmo as perguntas que parecem ser mais informais podem ter um peso decisivo. Cautela, portanto.

Bom, gelo quebrado, era hora de arregaçar as mangas e responder as questões técnicas. Paula é uma recrutadora que trabalha em uma empresa de alta tecnologia. Ela conhece o business, apesar de não ser técnica. Provavelmente, ela segue um script, mas conhece o mínimo para conseguir validar as respostas. Esta entrevista é a triagem. Se houver muito vacilo, a coisa acaba ai. Foram cerca de 40 minutos ao telefone com ela, respondendo questões básicas que iam desde protocolos de rede até fluxo de dados e aplicações como HTTP. Algumas perguntas básicas de Linux também entraram na lista. Muitas perguntas sobre TCP (muitas) – o que faz sentido, já que este protocolo precisa ser entendido a fundo no processo de balanceamento de aplicações. Finalizada a 1a etapa, cerca de 1 hora depois eu recebi um e-mail dizendo que eu havia passado e pedindo uma sugestão de data para participar da 2a entrevista. Marquei para 1 semana depois.

Bom, a segunda entrevista é a pior. Você fica cerca de 2 horas (!) ao telefone com um consultor senior da empresa, e passa por uma batelada de perguntas. Algumas são básicas, outras extremamente complexas e mesmo subjetivas. É “hard”! O consultor que me entrevistou – e que hoje é meu colega – tinha origem árabe e, portanto, seu inglês tinha um sotaque bastante puxado, o que não ajudou. Em várias ocasiões eu pedia para ele repetir a pergunta, não teve jeito. Dei sorte, pois além de brilhante, ele é um cara muito paciente. Houve perguntas sobre TCP/IP (nível HARD, incluindo função de campos específicos dos cabeçalhos, flags, detalhamento da operação do protocolo, análise de fluxos, etc), sobre HTTP, SSL, criptografia, NAT e PAT, persistência de conexões, Linux (que comando você usa no Linux para isso? E para ver aquilo? Como você configura XYZ no Red Hat? etc). Perguntou alguma coisa que envolvia lógica de programação também. Pouca coisa sobre Routing & Switching (que é o que eu domino). Foi difícil. Eu diria que foi a entrevista mais difícil pela qual já passei. Errei algumas, outras sequer tinha idéia e disse isso a ele. Em nenhum momento tentei passar uma impressão diferente da verdade. Respondi aquilo que eu sabia. O que não sabia, não respondi. Achei que tivesse sido reprovado, sinceramente. Mas… dois dias depois… surpresa! E-mail da Paula me felicitando e perguntando quando poderíamos marcar a próxima entrevista. Esta seria com o gerente senior da área e não seria técnica. Marcamos para a semana seguinte.

No dia marcado, lá vou eu para o lado do telefone esperar a chamada. E, como sempre, exatamente na hora marcada, ele toca. Era o Edward, o cara que depois seria meu chefe. Embarcamos em uma conversa descontraída. Ele me perguntou sobre minha carreira, perspectivas, motivos de escolher a F5, por que eu queria mudar para UK, etc. Foi muito leve a conversa. Não tinha muito como dar errado… acho que ele apenas queria sentir se eu não era um louco 😉 . Dois dias depois, e-mail da Paula. E vamos nós para a entrevista final – esta seria aqui em UK, na sede da empresa, em Chertsey. Me deram algumas opções de data, eu peguei uma que seria dentro de umas 3 semanas e deixamos tudo agendado. Um misto de alegria, orgulho e cagaço tomaram conta de mim. Eu já havia morado fora antes, mas com 20 e poucos anos de idade, solteiro e sem grandes preocupações ou responsabilidades. Mudar para outro país agora, de mala e cuia, com minha esposa, dois filhos e um cachorro… bom, era de meter medo. Mas nem pensei muito nisso. Abri o jogo com a família, disse que estava indo para o tudo ou nada e foquei no dia “D”.

E chegou o dia. Me despeço de todos, vou para o aeroporto e embarco. Dizem que a vida passa diante de seus olhos quando você encara a morte. Bom, isso também acontece em momentos como este, posso garantir ahahaha. Muito pensativo, encarei as 10 horas de vôo e cheguei em UK no dia seguinte. Aí, uma parte curiosa… eu só havia visitado a Inglaterra antes UMA vez, e por apenas 4 dias. Ou seja, eu não conhecia praticamente nada do país e seu povo. Sinceramente, não sabia onde estava me metendo. Peguei o taxi e fui para Chertsey. Me hospedei num hotel pitoresco, que fica em cima de um pub muito legal, a apenas 100 metros da sede da F5. A entrevista seria na 5a feira, mas a F5 reservou a passagem de forma que eu cheguei na 2a feira. Ou seja, ganhei praticamente a semana em Chertsey para descobrir um pouco a cidade e os arredores. Chertsey é minúscula, não tem quase nada… mas é muito bonita e calma. Os arredores são ainda mais interessantes. Gostei tanto que hoje moro em uma cidade que fica a 10KM de Chertsey e adoro. Aproveitei o tempo livre para ir à Londres e passear um pouco… sentir o “clima inglês”. Foi bem legal. Consegui me ver morando por ali, sem problemas.

A entrevista final teria 4 horas de duração, divididas em dois blocos de 2 horas cada. A primeira parte consistia em fazer uma apresentação para o diretor e dois gerentes da área de professional services. Um deles era o Edward – meu futuro chefe. A apresentação deveria ser técnica, mas poderia ser sobre qualquer conteúdo que eu desejasse. Como eu havia acabado de entregar um treinamento sobre Metro Ethernet para a Embratel, eu montei uma apresentação de cerca de 1 hora sobre o tema. A hora restante seria para responder questões sobre a apresentação. Eu tenho muita experiência com apresentações, seja em formato de cursos ou como palestras ou seminários. Assim, eu não deveria estar nervoso, já que havia feito apresentações em inglês para centenas de pessoas antes, em outras oportunidades. Bom… mas eu estava. E por uma série de motivos. O principal deles era saber que, se eu passasse, minha vida mudaria para sempre. Era algo grande, portanto. Enorme! Mas lá fui eu. Comecei uma apresentação de 1 hora sobre redes Metro sem vacilar muito. Os 3 apenas olhavam para mim. O diretor apenas tomava notas, não falava nada. Cerca de 20 minutos depois, pediram para eu parar – pensei: “Pronto, o sonho acabou”. O diretor me agradeceu, pediu desculpas e disse que tinha que sair. Não falou mais nada. Os outros dois ficaram na sala comigo esperando ele sair. Assim que ele saiu, olharam para mim e o Ed – meu atual chefe – disse em tom de deboche: He liked you, relax! Era isso… estava quase acabado. Passamos mais uns 20 minutos falando de amenidades e, depois, fui para a segunda etapa…

A segunda parte consistia de uma entrevista puramente técnica com meu colega – Alistair – um senior tech trainer de quase 2 metros de altura que era ex-militar. Só de olhar para ele dava medo. Entrei na sala e lá estava ele, sentado. Não se levantou, não sorriu, me cumprimentou e pediu que eu sentasse. Me perguntou o que eu sabia sobre F5 BigIP. Eu disse “Well… almost nothing” 🙂 Era a verdade, ué! Ele pegou uma pilha com umas 20 folhas de papel, me passou e disse: Quero que você me diga o que você entende disso que está ai. Peguei as folhas e gelei: Era código. Linhas de programação. E, para piorar, de uma linguagem que eu nunca tinha visto antes. Aquilo, meus amigos, era uma cabeluda iRule – linguagem de programação que os BigIPs usam para customização de código. Eu olhei para o Alistair torcendo para que fosse uma brincadeira, mas ele estava lá, sério, esperando que eu me manifestasse. Quando vi que era sério, falei: “Alistair, não sei se leu meu CV… mas eu não tenho muita experiência com programação e códigos”. No que ele respondeu: “Não tem problema, apenas me diga o que você entende que este código faz. Foque na lógica”. Senti meu futuro indo embora pela porta. Secretamente, xinguei aquele inglês na minha cabeça, em bom e claro português 😉 . Bom, comecei a analisar aquelas linhas. Fiquei, sem exagerar, cerca de 30 minutos debruçado sobre aquelas folhas. Grifei algumas linhas e comandos, tentei entender o que estava acontecendo ali e, no fim, achei que tivesse pelo menos pego a idéia “bruta” por trás daquele emaranhado de linhas. E disse a ele: “Olha, Alistair… pelo que eu consegui entender aqui, parece que este código faz algum tipo de análise no tráfego que está entrando no BigIP e, com base em algumas condições, faz algumas modificações nos headers, altera o endereço de origem com base em uma lista pré-definda e encaminha o pacote para ser tratado por um determinado pool. E isso se repete várias vezes com diferentes condições”.

Alistair sorriu (bingo!), olhou para mim e disse: “Sim. É mais ou menos isso. Deixe eu te explicar exatamente o que é”. Foi no quadro branco e me deu uma pequena aula sobre bigips e irules. Depois, passamos quase 1 hora falando de bobagens. A entrevista havia acabado. Me despedi dele e dos outros e voltei, feliz, para o hotel. Missão cumprida! Arrumei as malas e fui para o aeroporto – destino: Amsterdam. Tirei uns 3 dias para dar uma relaxada e esperar a Paula se manifestar.

Até o dia que eu ia voltar para o Brasil (ou seja, 3 dias depois da entrevista), a F5 ainda não havia dado sinal de vida. Achei que algo estava errado. Hesitei em mandar um e-mail para a Paula, mas mandei. Eu precisava saber. Ela respondeu pedindo desculpas e me disse que havia surgido um problema. A vaga que estava aberta em UK havia sido transferida para França. E ela me perguntou se eu cogitaria aceitar a vaga em Paris. Parece um sonho, certo? Mas era um pesadelo. Eu não queria morar na França. Eu não falo Francês. E os franceses não falam inglês. Eu queria UK! Disse à Paula que não ia dar. Que tinha que ser UK. Ela disse que ia ver se conseguia algo e me retornava. Já no Brasil, cerca de 1 semana depois, ela me ligou. Disse que entraram com um pedido de abertura de um novo headcount um UK, mas que o pedido teria de ir para a sede em Seattle e ser aprovado por lá. Que até isso acontecer, ela não poderia se comprometer com nada. Achei que era o fim… que estava terminado. Não vi grandes chances da coisa acontecer. Mas aí, vem o diferencial da empresa: A Paula me ligou TODA SEMANA, por quase 1 mês. Ela me passava o relatório do andamento do processo, em detalhes. Até que, finalmente, conseguiram a vaga! E ela era minha. UK, aí vou eu 🙂

Bom, isso conclui a parte da entrevista (fala sério, que NOVELA!!!). No próximo post da série eu conto como foi a adaptação minha e da minha família na Inglaterra. Também conto um pouco sobre a vida aqui, já passando algumas dicas para quem pretende seguir este caminho. Depois, no post seguinte, eu vou focar em passar dicas para quem quiser se aventurar a trabalhar fora.

 

Antes de terminar este post, queria dizer algo que acho importante. Enquanto eu estava no Brasil, eu era um profissional conhecido e respeitado. Ganhei alguma fama pelos livros escritos e pelos trabalhos no blog e em empresas como a Netceptions e a Cloud Campus. Eu recebia convites para palestras, era consultado por todos os lados. Era bom rsrs. Aqui, na Inglaterra, eu escolhi recomeçar, percebem? Aqui, sequer trabalho com redes… estou aprendendo novas tecnologias. De fato, me reinventando. Alguns me perguntam “Po, Marcão… como você largou uma posição aqui de nível gerencial em empresas como Embratel para ser um trainer?”. Tem muita coisa envolvida nesta pergunta. Uma delas é a questão da reinvenção, em si. Eu amo redes, não me interpretem mal. Mas aprender uma nova tecnologia – e não apenas isso, mas ensiná-la, depois – me seduziu demais. Achei que valia muito a pena arriscar esta movimento. E agora, 1 ano e meio depois, tenho certeza que fiz bem. Hoje, não apenas ensino o que há 1 ano eu não tinha idéia, como atuo como consultor, ajudando clientes e mesmo colegas de trabalho. Faz bem para a massa cinzenta e para nossas vidas sair de vez em quando de nossa zona de conforto… é duro, dá medo, mas vale. Não foi a 1a vez que fiz isso. Quem já leu minha trajetória num post de 2007 sabe que já fiz isso antes.

Como dizia um sábio, tudo o que você precisa é 50% de culhão, 50% de conhecimento e 50% de sorte 🙂

 

Vai, acredita que dá!

Abraço

Marco



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1 comentário

  1. jeancog84

    Wow, que saga em Marco, olha quando no final começaram a complicar as coisas, me vi ali, pois sempre que passo por situações dessas tem um “haja coração no final”, hehehe.

    Realmente foram muitas entrevistas e várias fases, bem complexo. Será que todas as empresas tem esse tipo de processo aí fora? Ou era por causa da vaga?

    Sobre a viagem, eles pagaram todas as despesas? Houve algum tipo de questionamento sobre você estar apto a morar na Europa (Legalizado)? Será que se não tivesse cidadania você acha que teria sido já descartado? O quanto UK tem interesse em estrangeiros sem cidadania Européia?

    Valeu pelas dicas!

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