Dica passada pelo Roberto Mendonça. Fonte: IDG Now. O que ocorreu mostra o quanto de tráfego é gerado pelo Youtube, no mundo. E isso também vai em linha com o comentário de Vint Cerf, em sua entrevista publicada aqui no blog, onde ele menciona que o Google é uma das poucas empresas de serviço que já se encontra em estágio adiantado de implementação da versão 6 do protocolo IP.

Diretor de provedor californiano notou tráfego 30 vezes maior; mudança é prevista e visa aumenar a capacidade de endereçamento da rede.

Sem alarde, o Google ativou o suporte ao IPv6 para o site de vídeo YouTube, e com isso provocou um pico de tráfego IPv6 que foi sentido desde quinta-feira (29/1) até segunda-feira (1/2). Observadores da indústria disseram que o YouTube aparentemente começou a funcionar com IPv6 em modo de produção, em vez de teste, como ocorre com boa parte dos casos de uso da próxima geração do protocolo da internet.

“Na quinta-feira, perto do meio-dia na Califórnia (18 h em Brasília), notamos uma grande quantidade de tráfego de entrada IPv6, que sabíamos proceder do Google”, disse Martin Levy, diretor de estratégias IPv6 do provedor Hurricane Electric. A empresa tem uma das maiores infraestruturas IPv6 do mundo.

“O tráfego IPv6 veio de provedores de todo o mundo quando o Google ligou seu tráfego IPv6 no YouTube”, disse Levy. “O IPv6 está sendo suportado por diferentes data centers do Google. Estamos falando de um pico de tráfego da ordem de 30 para 1. Em outras palavras, 30 vezes mais tráfego IPv6 veio dos data centers do Google do que antes.”

Estável

Levy acrescenta que o tráfego IPv6 do YouTube parece indicar o uso em produção, já que ele permaneceu estável desde quinta-feira e segue os padrões normais de uso.

Os observadores comemoraram a atualização do YouTube como um sinal da crescente aceitação do IPv6, uma substituição de protocolo que já era esperada. Muitos grandes sites, como YouTube e Netflix, estão ativando o suporte ao IPv6 porque os endereços disponíveis com o protocolo IPv4 estão perto do fim.

O Google já suporta IPv6 em diversos produtos e serviços, como Search, Alerts, Docs, Finance, Gmail, Health, iGoogle, News, Reader, Picasa, Maps, Wave, Chrome e Android.

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Este post, como muitos outros, foi baseado em uma discussão recente no fórum aqui do blog, sobre a possibilidade de acesso a um router real do backbone da Internet. Os route-servers - também conhecidos pelo nome de “looking-glass” - são roteadores disponibilizados por algumas operadoras para acesso público, e que possibilitam a verificação de informações bastante úteis para engenheiros de rede mundo afora.

Afinal, para que servem estes roteadores?

Os route-servers públicos são elementos separados das redes reais, de forma que apenas recebem a tabela de roteamento e não anunciam ou roteiam nada. Ou seja, são meros espelhos de rotas (e daí o nome “route-server”, ou “servidor de rotas”) dos roteadores que, de fato, fazem todo o trabalho. É importante ressaltar a diferença entre route-servers públicos (também conhecidos como “looking glass”, ou “vidro de espia”), e os route-servers de produção, usados nas operadoras para estabelecimento de peering, dentre outras funções. Uma vez mais, a “versão pública” destes roteadores não interferem em nada na operação da rede da operadora caso venha a falhar ou mesmo ser invadido por hackers.

A função dos route-servers públicos é simples: Disponibilizar aos engenheiros de rede mundo afora uma forma simples de:

  • Checar o as-path (ou o caminho entre as diversas operadoras até a operadora em questão) de uma rota anunciada localmente;
  • Testar a conectividade (via PING, por exemplo) e a rota IP (via traceroute) do route-server até uma rede anunciada localmente;
  • Checar o tamanho da tabela de roteamento global;
  • Verificar interesse de tráfego;
  • Dentre outras atividades 

Resumindo, um route server público tem uma conexão física (normalmente apenas uma mesmo) com a rede “viva” da operadora, e é alimentado via BGP com todos os prefixos contidos nos roteadores em produção. Mas ele, por si só, não gera nenhum anúncio, ou seja, se a conexão dele com a rede em produção vier a falhar, não haverá qualquer impacto para a rede da operadora. Apenas acusará um “BGP neighbor down”, e só. Se ele vier a ser invadido por um hacker, o impacto será igualmente nulo. Mesmo que um hacker o configure para anunciar rotas que poderiam causar transtornos ou mesmo grandes problemas na rede da operadora, filtros muito restritivos impostos no vizinho BGP que se encontra na rede “viva” não permitirá que nenhum destes anúncios seja aceito, e muito menos propagado.

Legal! E… como acesso um destes?

Existem sites que mantém uma lista atualizada dos route-servers ativos. Dois deles seriam o http://routeserver.org/ e o http://traceroute.org. Ambos fazem a mesma coisa: Disponibilizam uma lista, como a abaixo, com os endereços destes routers para acesso via Telnet. Basta, portanto, possuir um programa cliente Telnet para acessar qualquer um destes elementos. Vocês notarão que alguns deles sequer são routers dedicados, por assim dizer. Alguns provedores usam um PC rodando o software Zebra, por exemplo. Outros usam Linux. Alguns usam Cisco e outros Juniper, também. Basta garimpar e vocês encontrarão coisas interessantes ;-) !

Segue o mapa provido pelo routeserver.org, e a listagem dos RS disponíveis. Agora, é arregaçar as mangas e começar a festa - ou melhor, os acessos…! :-D

Abraços,

Marco Filippetti

map_world.gif

País / Cidade Provedor ASN
Australia/Chatswood Optus Australia 7474
Brazil/Sao Paulo PTT-Metro Sao Paulo 22548
Brazil/Sao Paulo Terremark Internet Exchange Sao Paulo 1251
Canada/Vancouver GT Group Telecom (West) 6539
Canada GT Group Telecom (East) 6539
Canada/Burnaby 852
Canada Telus - Western Canada 852
Canada/Toronto Allstream - Central 15290
Canada/Montreal Allstream - East 15290
Canada/Vancouver Allstream - West 15290
Canada/Halifax Eastlink 11260
Germany/Hamburg Broadnet Mediascape Communications AG 9132
France OpenTransit 5511
Finland Eunet Finland 6667
Germany Tiscali 3257
Germany/Stuttgart BelWue 553
Japan Oregon Route Views Project 2500
Mexico Rio Grande do Sul Internet Exchange 1916
Netherlands Zebra Route Views on  Swift Global 21280
Philippines Bayan Telecom Inc. 6648
Philippines Manila Internet Exchange 9670
Romania Astral Telecom 6746
Switzerland Swisscom IP Plus 3303
South Africa South AfricanInternet Exchange - SAIX 5713
South Africa/Mauritius Internet Solutions 3741
Switzerland Sunrise Switzerland 6730
USA/Denver Time Warner Telecom 4323
USA/Ashburn Nlayer 4436
USA/Boca Raton, FL Host.net 13645
USA/Santa Clara Savvis 3561
USA/Sunnyvale Global Crossing 3549
USA/Oregon University of Oregon Route Views Project 6447
USA/Ashburn, VA Zebra Route Views on Sprint Network 1239
USA/CA Zebra Route Views on ISC.org 3557
USA/Fremont,  CA Hurricane Electric 6939
USA/New York AT&T 7018
USA/Las Vergas Switch Communications 23005
USA/SanDiego CERFnet 1838
USA/Broomfield, CO Wiltel 7911
UK Colt Internet 8220
UK Oregon Route Views with Verizon UK 5459
UK Global Crossing - Europe 3549
UK Energis / Planet Online 5388
UK PIPEX 5413
UK/London MainzKom Telekommunikation GmbH 15837

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Caros, conforme os participantes do curso ONLINE vão se reciclando (inscrições vão vencendo), vou abrindo novas vagas no curso. Desta vez, temos algumas vagas que foram liberadas, e vou mantê-las em aberto até 15/02 ou seu esgotamento (o que vier antes).  Aproveitem!

Lembrando que o pagamento deve ser realizado via PagSeguro e a matrícula apenas é confirmada quando o pagseguro confirmar o pagamento. Portanto, a simples emissão de boletos, por exemplo, não caracteriza matrícula. A data limite para realizar o pagamento é dia 15/02, e os dados para acesso serão enviados APENAS NO DIA 20/02 (uma vez mais, peço que não me enviem e-mails do tipo “Marco, fiz o pagamento hoje, quando receberei o login e senha?”…!). Até dia 20/02, estando o pagamento em dia, você receberá os dados. Os dados não serão enviados antes.

NOTA: Usuários do UOL, Terra e outros provedores de e-mail que utilizem filtros anti-spam, favor checar sua caixa de SPAM, pois em muitos casos, como este e-mail é enviado via sistema, ele pode cair nela.

Inscrições e maiores informações neste link.

Um abs!

Marco.

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Pessoal, montei um breve tutorial sobre o GNS-3, como eu havia prometido. De quebra, inclui o assunto VPCS ;-) !

Abs!

Marco.

Parte 01

Parte 02


Parte 03

Espero que gostem!

Um abs!

Marco.

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Vinton CerfNOTA: A versão em Português desta entrevista segue na sequência deste post, logo abaixo. Little are the unforgettable moments in life. To me, this was certainly one of those. To be able to directly interview Mr. Cerf, a man who I have read about in several books during my computer network studies, the man whose findings and researches ended up creating nothing less than the Internet, well, seemed a lot improbable. But with a little persistency and a LOT of good will of Mr. Cerf, this interview was materialized. Thank you Mr. Cerf, for being such an accessible and kind man. It was a great honor!

To all: Enjoy it!

Best regards from Brazil,

Marco A. Filippetti


Mr. Cerf, first of all, on behalf of all readers of this blog, I would like to thank you very much for making time on your amazingly busy schedule to participate in this short interview. As I said before, it is an indescribable honor to have the opportunity to interview a living legend, the man who fathered the Internet.

<——- Interview Starts ——->

FILIPPETTI: At late 60’s you participated at the startup of the ARPANet, interconnecting its first two nodes. Many readers of this blog - me included - would like to know:

FILIPPETTI: Did you imagine, at the time, that the ARPANet and the TCP/IP protocols would end up affecting billions of people as it evolved to the Internet?

MR. CERF: At the time I was working on the host protocols for the ARPANET as a member of the Network Working Group team led by Steve Crocker, I think I had no idea what might happen. I was at UCLA at that time (1967-1972) and also working on a Ph.D. as well as serving as principal programmer for Prof. Leonard Kleinrock’s Network Measurement Center. In 1973, Bob Kahn and I began to work on the design of an architecture and protocol suite that would allow arbitrarily large numbers of packet networks to be interconnected. At the time we were doing this work, we were well aware of the applications that were possible, including things like packet voice and video. We were also well aware of the work of Douglas Engelbart at SRI International to support collaborative knowledge work with mouse, portrait-mode black/white displays, hyperlinking and powerful editing and document sharing tools. While we probably did not foresee at the time the global adoption of this technology, we did know that it provided a very potent and extraordinary opportunity to allow a broad range of invention by a wide range of contributors. It was an extremely open, distributed design and adopted a basic posture of accommodation for almost anyone with an idea to try it out. Our idea was that if you could implement the protocols you could connect to the network and become a part of it.

FILIPPETTI: What were the most challenging issues faced at that time?

quote2.gifMR. CERF: When the design work was first under way, we needed to invent a way to refer to different networks and to give addresses to each computer on each network. That led to the Internet Protocol (ultimately version 4). We also needed to develop the concept of a “gateway” that could relay Internet packets from one network to another. We did NOT translate packet formats between connected networks. Rather, we encapsulated each Internet packet in the packet format of each network. This is sort of like putting a postcard into an envelope specific to each connected network. Eventually, gateways became routers and everyone spoke “IP” even in the core of the network. Since then other networking technologies like Multi-protocol Label Switching (MPLS), Frame Relay, Asynchronous Transfer Mode, varying kinds of wired and wireless Ethernets all encapsulate Internet packets for transport within each network.quote4.gifThe next big challenge was getting the protocol implemented on many operating systems of the time (about 30 I think). Then we needed to get everyone to actually implement the net protocols replacing the ARPANET Network Control Program (NCP). This was one 1 January 1983 (with a few laggards). After that, the battle was global standardization and we had to wrestle with X.25/X.75 and Opens Systems Interconnection standards that were rivals. Eventually, TCP/IP became the de facto standard. Then came the WWW around 1989 and the commercialization of the Internet itself. Many policy issues now face the Internet community as it becomes a global resource and infrastructure.

FILIPPETTI: Nowadays, it is common knowledge that IP address exhaustion is going on rapidly. Forecasts point that by 2013 there should be no more public routable IP address blocks available. The version 6 of the IP protocol came as a response to that, little more than 10 years ago (in 1998). Still, it can be said that IPv6 is only in its infancy in terms of general worldwide deployment, having little more than one percent of Internet-enabled hosts in any country. That leads to the question:

FILIPPETTI: How do you see this issue (of IPv6 worldwide deployment) summed up with the rapidly depletion of IPv4 usable IP addresses?

quote5.gifMR. CERF: Generally, I think pressure will build as the runout becomes most visible in mid 2011. I see evidence of implementation of IPv6 in key places (and proud to say that Google has done its homework in this area). There will be hacks to deal with IPv4 and IPv6 inability to interact directly but there really isn’t any sensible alternative to implementing the larger address space.

FILIPPETTI: Now, with so little time to adapt, do you see a solution to minimize the impact to the end user and to the ISPs (regarding the v4 to v6 migration problem)?

MR. CERF: There are some steps using Network Address Translation tricks (see ComCast) that might help. However, most laptop and desktop operating systems, most server operating systems and most routers have the IPv6 code – they have to turn it on and learn to operate dual-mode networks, servers and clients. It is not trivial but also not hard – but it does take patience to get the details right.

FILIPPETTI: Technology is a living thing. It rapidly changes the world as we know by the creation of new ways to interact with it.

FILIPPETTI: What do you see coming as the five or six concepts or technologies that might change the world, as the TCP/IP did?

MR. CERF: Wireless for sure (and ultra-broadband); Delay and Disruption Tolerant Networking (DTN) that is being proposed for interplanetary communication and noisy/hostile mobile operation; non-fossil fuel sources (various kinds of solar; geo-thermal); LEDs to replace conventional light sources; patient-specific medical treatments (driven by genome and proteome information); neural-electronics (such as cochlar, ocular and spinal implants); quantum computation for certain kinds of computations.

FILIPPETTI: To wrap up this brief interview, Mr. Cerf, our readers would like to know: You are working at Google now, one of the most important and visionary technology companies in the world.

FILIPPETTI: How did you end up working there?

MR. CERF: I sent an email to Eric Schmidt [Chairman of the Board and Executive Director @ Google] asking if he needed any help and he said “yes”.

FILIPPETTI: What is your role in this great company? Can you mention any revolutionary – non-confidential - project you are working right now?

quote6.gifMR. CERF: We don’t discuss projects we are not ready to announce so I can’t tell you anything secret. We are working hard to improve ways in which people can interact with network resources. Our recent announcement of automatic captioning of English language video is an example. We are very focused on improving accessibility of our products and services. I am very interested in the confluence of all media onto the Internet and particularly curious to see what implications this has for entertainment and education. I am also interested in new modes of interaction (speech, gesture) in addition to keyboard and mouse paradigms.We continue to look for more ways to help organize information including our own medical information in a personal health database.

<——- Interview Ends ——->

Mr. Cerf, once again, thank you for accepting this invitation! I still can’t believe I am exchanging an e-mail through the Internet with one of the persons who created it :-D

My best regards,

Marco A. Filippetti

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Vinton CerfPoucos são os momentos, nesta vida, que tornam-se inesquecíveis. Para mim, este certamente foi um deles. Conseguir uma entrevista direta com Vint Cerf, o homem que eu conhecia apenas dos livros que estudei durante minha carreira em redes, parecia algo improvável. Mas eis que, com um pouco de persistência - e muita boa vontade do Sr. Cerf, claro - consegui! Segue abaixo, na íntegra e traduzida, esta entrevista. Dada a importância deste ser humano, resolvi criar dois posts. Este, com a entrevista em Português, e outro, com a mesma entrevista em seu formato original, em Inglês.

Espero que gostem! um abraço!

Marco Filippetti


Sr. Cerf, antes de tudo, em nome de todos os leitores deste blog, gostaria de agradecer-lhe por disponibilizar-nos tempo em sua agenda surpreendentemente ocupada para participar nesta curta entrevista. Como disse antes, é uma honra indescritível ter a oportunidade de entrevistar uma lenda viva, o homem que criou a Internet.

<——- Início da Entrevista ——->

FILIPPETTI: No fim dos anos 60, o senhor participou do lançamento da ARPANET, interligando seus primeiros dois nós. Muitos leitores deste blog - eu incluso - gostariam de saber:

FILIPPETTI: O senhor imaginou, naquela época, que a ARPANET e os protocolos TCP/IP acabariam afetando a vida de bilhões de pessoas, à medida que a ARPANET evoluiu para a Internet atual?

Quote 01MR. CERF: Naquela época eu trabalhava nos protocolos para a ARPANET como um membro do Grupo de trabalho em Redes, liderado por Steve Crocker, e acho que eu não tinha nenhuma idéia do que viria a acontecer. Estava na UCLA (Universidade da Califórnia) naquela época (1967-1972) e também trabalhando no meu doutorado, assim como atuando como programador principal para o Prof. Leonard Kleinrock, no Centro de Gerenciamento de Rede. Em 1973, Bob Kahn e eu começamos a trabalhar no projeto de uma arquitetura e um conjunto de protocolos que permitiriam a interligação de um número arbitrariamente grande de redes de pacote. Na época em que conduzíamos este trabalho, estávamos bem conscientes das aplicações que seriam possíveis, inclusive coisas como o transporte de voz e vídeo sobre redes de pacotes. Estávamos também bem conscientes do trabalho de Douglas Engelbart na SRI Internacional em suportar trabalhos de conhecimento colaborativo em mouses, monitores branco e preto com modo de exibição retrato (vertical), hyperlinking e ferramentas poderosas de edição e compartilhamento de documentos eletrônicos. Enquanto nós provavelmente não previmos a tempo a adoção global destas tecnologias, sabíamos que forneceria uma enorme e extraordinária oportunidade que permitiria o surgimento de uma ampla gama de inventos vindos de inúmeros colaboradores. Tratava-se de um design extremamente aberto e distribuído, e adotou uma postura básica de acomodação para quase qualquer um com uma idéia para colocá-lo em prática. Nossa idéia era que se pudéssemos implementar os protocolos, você poderia conectar-se à rede e tornar-se parte dela.

FILIPPETTI: Quais foram os maiores desafios enfrentados na época?

Quote 02MR. CERF: Quando o trabalho de projeto já se encontrava adiantado, tivemos que criar uma forma de referenciar diferentes redes e designar endereços lógicos para cada computador, em cada uma destas redes. Isso resultou no Protocolo IP (já em sua versão 4, na época). Foi também necessário criar o conceito de “Gateway”, que poderia transmitir pacotes IP de uma rede para outra. A idéia NÃO era traduzir formatos de pacote entre as redes conectadas, mas sim, encapsular cada pacote IP no formato de pacote necessário para cada rede. Isto seria análogo a colocar um cartão postal em um envelope específico para cada rede conectada. Eventualmente, os gateways tornaram-se routers e todo o mundo começou a “falar IP”, mesmo no core da rede. Desde então, outras tecnologias para interconexões de rede como Multi-Protocolol Label Switching (MPLS), Frame Relay, ATM, e várias outras formas de redes com ou sem fio passaram a encapsular pacotes IP para transporte dentro de cada rede.

Quote 03Outro grande desafio foi conseguir que o protocolo fosse implementado nos diversos sistemas operacionais existentes na época (cerca de 30, creio). Precisamos, então, convencer a todos que seria necessário substituir os protocolos de rede do programa NCP da ARPANET. Isso foi em 1º de Janeiro de 1983. Depois disso, a batalha foi com a padronização global, e tivemos de guerrear contra os padrões rivais X.25/X.75 e OSI (Open Systems Interconnection). Eventualmente, o TCP/IP tornar-se-ia o padrão “de facto”. Depois, por volta de 1989, veio a World Wide Web (WWW), o que deu força à utilização comercial da Internet. Hoje, muitas questões políticas, técnicas e de segurança assolam a comunidade Internet uma vez que ela se tornou um recurso e uma infra-estrutura de uso global.

FILIPPETTI: Hoje em dia, é de conhecimento comum que a exaustão dos endereços IP vem ocorrendo rapidamente. Previsões mostram que por volta de 2013 não teremos mais endereços IP públicos (roteáveis) disponíveis. A versão 6 do protocolo foi criada como uma resposta para este problema há mais de 10 anos (em 1998). Ainda assim, podemos dizer que o IPv6 encontra-se em sua infância em termos de adoção global, tendo uma penetração de menos de 1% nos hosts conectados à Internet, mundialmente. Isso nos leva à questão:

FILIPPETTI: Como o senhor vê este problema (da tímida adoção global do protocolo IPv6), somado à questão da rápida exaustão dos endereços IPv4 roteáveis?

quote4pt.gifMR. CERF: Geralmente, penso que a pressão ficará mais forte quando a exaustão ficar mais óbvia, lá para meados de 2011. Por outro lado, vejo evidências da implementação do IPv6 em lugares chave (e me orgulho em dizer que o Google fez seu dever de casa nesta área). Haverá soluções paliativas para lidar com a incapacidade do IPv4 e IPv6 interagirem diretamente, mas a verdade é que realmente não há qualquer alternativa simples para implementação do espaço maior de endereçamento.

FILIPPETTI: Agora, com tão pouco tempo para adaptação, o senhor enxerga alguma solução para minimizar o impacto para o usuário final e para os provedores de serviço (ISPs), com relação ao problema de migração do IPv4 para o IPv6?

MR. CERF: Existem algumas técnicas utilizando tradução de endereços – NAT – que podem ajudar (a Comcast é um exemplo neste sentido). Entretanto, a maioria dos sistemas operacionais instalados nos laptops e desktops, assim como grande parte dos sistemas operacionais de servidores e roteadores, já possuem a versão 6 do protocolo IP implementadas – resta o trabalho de ativar esta funcionalidade e aprender a trabalhar em “dual-mode”, com ambos os protocolos coexistindo. Concordo que não é algo trivial, mas também não é algo muito complicado – e exige paciência para acertar os detalhes.

FILIPPETTI: A tecnologia é como um ser vivo, e rapidamente altera o mundo em que vivemos por meio da criação de novas formas de interagir com ele.

FILIPPETTI: Quais os cinco ou seis conceitos ou tecnologias que o senhor enxerga com possibilidade de mudar o mundo em que vivemos?

MR. CERF: Redes sem-fio e “ultra-banda-larga”. Delay and Disruption Tolerant Networking (DTN), que está sendo proposto para comunicações interplanetárias e operações móveis em ambientes hostis ou sujeitos a muita interferência. Combustíveis alternativos (não-fósseis), LEDs como substitutos das fontes convencionais de iluminação, novos métodos e tecnologias para tratamento de pacientes (baseados nas informações proporcionadas pelo Genoma e Proteome), eletrônica neural (como os implantes ópticos e auditivos) e computação quântica.

FILIPPETTI: Para finalizar esta entrevista, senhor Cerf, nossos leitores gostariam de saber: O senhor está trabalhando hoje no Google, uma das mais importantes e visionárias empresas de tecnologia do mundo.

FILIPPETTI: Como o senhor foi parar lá?

MR. CERF: Eu enviei um e-mail para Eric Schmidt (presidente do conselho e diretor executivo do Google) perguntando se ele precisava de ajuda, e ele disse “sim”.

FILIPPETTI: Qual o seu papel nesta importante empresa? O senhor poderia mencionar algum projeto revolucionário – não confidencial, claro – que o senhor esteja trabalhando no momento?

quote5pt.gifMR. CERF: Nós não discutimos projetos que não estamos prontos para tornar público, portanto, não posso contar-lhe sobre nada que se encaixe nesta categoria. Estamos trabalhando muito para melhorar os meios como as pessoas interagem com os recursos de rede. Nosso recente anúncio de uma tecnologia que possibilita a incorporação automática de legendas em filmes em inglês é um exemplo disso. Estamos muito focados em melhorar a acessibilidade de nossos produtos e serviços.

Tenho muito interesse na confluência das mídias para a Internet, e fico particularmente curioso para ver quais implicações isso teria para o entretenimento e a educação. Outra área que me fascina diz respeito aos novos meios de interação eletrônica – como a fala e gestos – e como eles quebram o paradigma imposto pelo teclado e o mouse.

Seguimos buscando novas formas de organizar informação, incluindo nossos próprios registros médicos em uma base de dados médica pessoal, por exemplo.

<——- Fim da Entrevista ——->

Sr. Cerf, uma vez mais, gostaria de agradecê-lo por ter aceitado este convite. Eu ainda custo a acreditar que estou trocando e-mails via Internet com uma das pessoas que participou em sua criação :-D !

Saudações do Brasil,

Marco A. Filippetti

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